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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
A minha opinião? Claro que dou… isto vai passar quando? Ai está em directo? Nas notícias da tarde? Bem, então é assim: nós estamos aqui - pais, professores e funcionários - para defender o nosso colégio e vamos ficar aqui até nos ouvirem, nem que seja todo o dia e toda a noite! Nós, os cidadãos deste país, pagamos os nossos impostos e por isso devemos ter o direito de escolher a escola dos nossos filhos! Hã…?
Sim, sim, conheço a escola pública, fica ali ao fundo da rua… até dizem que é muito boa, que ficou em primeiro lugar nos ranques - ou lá o que é isso – no ano passado… Mas aquilo não é para o meu Micael… ele já lá andou, mas chumbou duas vezes – os professores lá são muito exigentes, puxavam muito por ele, coitadito – até que o mudei aqui para o colégio e ele agora até tem boas notas, veja lá o senhor! Os professores aqui compreendem-no melhor, entende?
O meu Micael, lá na outra escola, só gostava de uma professora, era a única que tinha paciência para ele, mas chegou ao fim do ano e ela teve de se ir embora, porque foi a um concurso, está a perceber, e ficou colocada numa escola muito longe; fartou-se de chorar, coitada, porque ela queria ficar ali e os alunos também queriam que ela ficasse… e vai-se a ver mandaram-na para longe. Diz que havia outros professores com melhores notas ou médias ou quê e passaram-lhe à frente! O senhor está a ver isto? Mas que país é este, senhores? Já não há justiça?
Já aqui, no Colégio de Santo António da Cunha, isso nunca acontece! Os professores aqui não vão aos concursos, que é lá isso?! É como diz o senhor director, “aqui somos todos uma grande família”! E olhe que ele não diz isso só por dizer, é mesmo verdade, ora veja lá: a professora de Português do meu Micael, por exemplo, é sobrinha do senhor director, o marido dela é professor de Matemática e a professora de Ciências é filha da subdirectora, que por acaso, até é cunhada do senhor presidente da câmara! Está a ver? É tudo gente da terra, tudo boa gente, que se ajuda uns aos outros, entende?
Não há direito de virem agora dizer que não posso cá ter o meu Micael! Era o que faltava, depois de eu ter gasto um dinheirão nas t-shirts com o emblema do colégio e nos fatos de treino e no uniforme! E olhe que bem me vi aflita para os comprar, nem queira saber! E o estado chegou-se à frente nestas despesas? Hã? Era o chegavas! Acha isto bem? Paguei eu tudinho e olhe que, nesse mês, o que me valeu foram umas coisinhas que a minha sogra trouxe lá do banco alimentar, senão estava a coisa malparada, que o subsídio é uma miséria, não dá para nada!
Mas olhe que foi um dinheirinho muito bem empregue, lá isso foi! Olhe que o meu Micael nunca mais vestiu outra roupa: sai de casa muito brioso todas as manhãs com a sua t-shirtezinha do colégio, com aquele emblema de bordadinho dourado, para fazer ver àquelas songamongas soberbas da vizinhança que não somos nenhuns pelintras!
E agora isto? Fazem uma coisa destas ao povo que tanto lutou pela liberdade e pela democracia e pelos seus direitos? Admite-se isto? Não há de uma pessoa ficar indignada? É uma vergonha, é o que é.